quinta-feira, 27 de março de 2014

MACRAMÊ (TRAMAS DA VIDA)



            Inúmeras pessoas exercem suas atividades com excelência — quer sejam profissionais, quer sejam por diletantismo —, o que não devem e/ou podem diminuir a admiração por muitos e, ainda, trazem muitas conjecturas do seu porquê nas reflexões de alguns.
            Soube de vários casos que poderiam ilustrar a questão , entretanto, quereria salientar a história de uma septuagenária artesã das linhas e tranças que no correr  de uma década dedicou-se à atividade no afã de ressignificar a sua existência após o estabelecimento de sua família unicelular e para o complemento de sua renda.


            Até iniciar-se como vendedora  em uma feira de artesanato para auxiliar uma das filhas, só havia feito bordados em ponto cruz, costuras simples e consertos  para a própria família, com nenhuma intenção de ganho financeiro. A convivência com  outros artesãos da feira estimulou-a a aprender algum ofício com eles, pôs-se a confeccionar cestas, cestinhas, porta garrafa de vinho com jornal desatualizado — aquele que alguém leu ou não, mas que é mais antigo que o de hoje — e,  também, fazia velas  perfumadas, das mais diversas cores, para a decoração dos lares a que muitas mulheres dedicavam-se.
            Migrou para a fazedura de bolsas, porta-moedas e cintos utilizando lacre de lata de bebida e a técnica do caseado, com a companhia auxiliar de linhas e agulhas.
            Em pouco tempo  pôde-se constatar, por meio  de comparações, a  superioridade do seu desempenho na diferenciação de emaranhados iniciais em adereços.
            Assim, enfeitou a vestimenta de muitas jovens e, eventualmente, de balzaquianas e  maduras mulheres.
            Como toda moda tem o seu fim, a dos adereços com lacres também encerrou-se. Entrementes, durante o decréscimo do interesse público por tal ornamento guinou para o enfeite de toalhas e panos diversos para cozinha com a técnica do macramê, porém, sem os lacres. Desenvolveu sua habilidade com o auxílio primeiro de uma instrutora e, posteriormente, com o das revistas pertinentes; os panos eram deveras elaborados que muitas pessoas apenavam-se para enxugar seus  utensílios de cozinha.
            As tramas em macramê atraíram a admiração de tantos quantos os viam: companheiros da feira de artesanato, turistas nacionais e do exterior.
            Algumas figuras trançadas eram dignas de ser consideradas obras de artes; na verdade, eram-no.
            Da mesma forma, podem-se encontrar muitos outros trabalhos merecedores da mais elevada consideração — independente da área de atividade. Também vê-se que o trabalho tem um componente de socialização para o ser humano, visto que é um ente gregário.              21/01/2010




domingo, 12 de janeiro de 2014

A GRAÇA DE UMA MONT BLANC

          Visito uma família que mora em uma espécie de vila de quatro casas, em uma rua sem saída, duas a duas, e de frente para o outro grupo. As casas são feitas sobrados, pintadas na cor mostarda, com janelas de madeira na cor marrom. Parece um local interessante para habitar.

          Ao andar pelo corredor — ou rua sem saída ­—  para partir é possível visualizar os fundos estruturais de uma casa vizinha em enxaimel. Quantas histórias neste recanto. Quantos anos teria esta construção?
 
          É um caminho de algumas dezenas de metros da rua até às portas, nesse há algumas plantas, onde dois jovens gatinhos (um amarelo e outro preto e branco) brincam. Os filhotes animais são, sob certos aspectos, similares aos bebês humanos, um deles é quanto à graciosidade. Os bebês em geral são exemplos além do anterior, de energia, de beleza e de encanto no que tange ao futuro — da esperança no porvir.

          Das plantas que são belas faço diversas tomadas fotográficas, dos gatinhos entre as folhagens também.

          Uma criança com seus cabelos castanhos claros e longos, com janelinhas  nos incisivos centrais superiores (em que uma das abas está mais alta ou a outra mais baixa que a primeira, na dependência do referente), pergunto-lhe o nome, ela o diz:
— Fernanda.
— Fernanda Montenegro?
— Não!
— Então, é Fernanda Monte Branco, Fernanda Mont Blanc?
— Isto, isto mesmo.
— Está certo, prazer em conhecer você, Fernanda Mont Blanc.
— Pessoal, eis aqui a nova famosa dentre as maiores celebridades do cenário nacional: Fernanda Mont Blanc.

          Um lindo sorriso de janelas escancaradas invade-lhe a pueril face. Que doce e esperta criança. Corre avante e a ré brincando com os felinos domésticos. Afinal, a inesperada,  e  quase sempre fugaz, fama não ofusca o cerne existencial dela.

          É energizante ver e conviver com crianças saudáveis, inteligentes e bem cuidadas ( com os jovens animais também). Nenhuma criança deveria ser carente das necessidades básicas — elas deveriam ou poderiam ser priorizadas em relação aos adultos —, e nem desprovidas de segurança e afeto.                                                                 10/01/14



 
 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O BRASILEIRO NÃO CORDIAL

            O brasileiro tem o hábito de valorizar tudo que é estrangeiro, entenda: Europa, EUA e outros países desenvolvidos.
           Chega ao absurdo de subjugar coisas nossas em favor de alheias, sem ao menos conhecer as características de certos produtos ou atividades só pelo fato de serem Made in Brazil. No entanto, há exceções, por exemplo: biótipo da mulher, futebol e esperteza nacionais.
        
            No tocante à mulher brasileira, é inconteste, ele tem razão. Estava em Stohenge, Inglaterra, quando circundavam-me gentes dos mais variados cantos planetários, rostos e físicos, que de forma isolada, desmereciam o mínimo desdém, havia faces europeias lindas, orientais rostos simétricos acompanhados de olhos ovalados, órgãos da visão árabes de penetração enigmática, quando vi um físico que se equiparava à arte dos deuses escultores, não pude me conter, aproximei-me e perguntei-lhe: Excuse, where are you from? Ouvi: I'm from Brazil. Meus neurônios autoquestionaram-se porque eles não tinham a mesma intuição com os números da mega-sena da virada de ano.        

           Quanto ao futebol, o nativo não poderia opinar de forma diferente, considera-se o melhor dentre todos, contudo, há discordâncias e alternâncias com outros.          

           Em relação à esperteza, realmente temos muitos malandros — de todos quantos possíveis matizes — desde o esperto para entender uma piada capciosa (o que não é malandragem, só esperteza) até os mais despudorados e ignominiosos. Espero que nunca tenhamos a máfia brasileira como instituição, porquanto ela sempre existiu em nosso conjunto social.

           E é justamente devido cada brasileiro querer ter — logo, exercer — a suas idiossincrasias, pelo desapego, descaso e desrespeito por toda e qualquer regra, talvez seja por deseducação, ou pelo simples ato de infringir a ordem como que a exercer a própria fruição da liberdade falsa proporcionada, e isso independe de qual segmento da sociedade venhamos a nos reportar.

           Poderá alguém alegar que são consequências da miscigenação, o que acarreta o imbricamento das características indesejáveis de todos componentes de origem no grupo social brasileiro em questão.

           Desrespeita-se e escarnece de tudo para criar o próprio estilo, já não do brasileiro, mas de cada brasileiro.

           Essa caracterização enseja por conceituar a descrição descaracterizadora de um povo, não como sociedade , haja vista que dessa maneira não se pode sê-la, e sim um bando de seres vivos que deveriam compor a espécie homo sapiens, e não o faz.

           Cada um por si tenta lograr êxito, alguns nem sempre com as mais virtuosas ferramentas.
           Não é imoral chegar ao cume, todavia, os meios empregados para acessá-lo fazem diferença.

           Isso não significa que o homem deve ser cordeiro sempre; existe um momento de sê-lo, e a necessidade de ser leão também pode-se fazer imperiosa. Assim como não se pode ganhar uma guerra no campo com palavras arrazoados para persuasão.

           A criatividade não deve ser tolhida por amarras. Liberdade para todos requer alguma perda individual.

           Por que o brasileiro também não venera a postura de outros povos, no que se refere ao coletivo em detrimento do seu egocentrismo?

           Como serão as imagens do brasileiro — e do "Brazil" — após a Copa 2014 e as Olímpiadas 2016?                                                                          08/12/2013

sábado, 30 de novembro de 2013

TRIBUNA LIVRE

          Em 1982, ao estudar em uma escola técnica pública, em Guaratinguetá - SP, tive o professor Sílvio, que ministrava redação. Ele era um exemplo de profissional, estimo que tive cerca de 200 professores e ele encontra-se entre os 10 mais dedicados, capacitados e vocacionados — vê-se que o time de primeira não é extenso, cerca de
5% —; esse mestre era atencioso, sabedor de como incentivar o denodo para a graficalização das ideias ou mensagens que se quer (ou se deve) exteriorizar.

          Outra característica sua era que corrigia os textos com tinta verde; perguntado, ele respondeu que essa cor não apavorava, porém, apascentava o aprendiz, o oposto da tradicional cor de apontamentos de acertos, falhas e valorações.

           Dizia-nos que há um local de publicação — não digo que seja o único —, contudo, talvez  seja o que possibilita ao alfabetizado comunicar-se por signos sem  a mínima chance de experienciar pudores  e reprimendas. É onde o expositor faz o que  e como quer e como pode ( em outras palavras, como sabe), e ninguém o aclamará ou o repudiará pelo nível de sua linguagem, pensamentos, tendências ideológicas ou outras quaisquer.

           De quando em vez, lembro-me de suas asserções, reflito e constato que naquela plataforma escreve-se sobre o amor ou atrações entre gêneros diferentes ou iguais, provérbios religiosos ou populares, incentivos sob a forma de sentenças amenas ou escárnios chulos aos semelhantes, solicitações de atenção ou ofertas de serviços corporais vários por meio de números telefônicos, sites ou e-mails.
 
          Ele tinha razão, nesse espaço não há contraventores identificados legalmente ou promotores de justiça, quiçá alguns com disposições julgadoras condenativas ou liberalizantes; nada disso pode conectar-se ao expressador, ele continua liberto, em devaneio para esculpir  no nosso cotidiano marcas rudimentares  anônimas ou identificadas, haja vista que o comum é a transmissão de mensagens digitais, as quais também podem ser de autoria revelada ou não.
 
          Reconheço que tais escrituras dilapidam patrimônios públicos ou privados, porém, é uma forma de veiculação escrita sem o cerceamento íntimo ou externo, os quais fazem-nos escravos pós abolição.
 
          É a autêntica liberdade de imprensa, escrevo, de impressão, mesmo que seja de diminuta veiculação.                                                                                                          30/11/2013

terça-feira, 5 de novembro de 2013

TÁ, ENTÃO, TÁ, TÁ: COLHER CISPLATINA

Está-se com a querida companheira em terras longínquas, em um hotel que não oferece além do usual de um frigobar para a situação e dois copos.
Ela tem um quase gravídico desejo por vinho e um queijo —não tão habitual—, e agora, o que fazer? Visto que uma parceira contrariada é pior do que não tê-la há tempos.
O melhor é que parte da empreitada está posta, estão nas ruas. Começam a procurar vinho de meia garrafa, já que só um bebe. Além do queijo, pão especial — não servem o francês, o de forma, o integral —, italiano é o parceiro ideal para o que deleitava Dionísio e para o produto lácteo (que também não haveria de ser mussarela, frescal, prato e tantos outros), quem sabe um parmesão ou emental.
Mas para cortar o queijo e o pão não havia qualquer apetrecho que pudesse desempenhar a façanha.
Vai-se a uma padaria, a outra, um mercado, e mais outro. E nada de agrupar os itens desejados.
Passa-se em frente de uma loja de caça e pesca, no qual há armas mil — até nunchaku, shuriken e espada samurai — mas nada que servisse, exceto um canivete, porém o custo não era convidativo.
Depois de conhecer a loja de lingerie SI-SI, da de calçados TO-TO, chega-se ao supermercado TA-TA, onde há vinhos, queijos, contudo nada de cortantes, mesmo havendo outros talheres à venda. Solução: levar uma colher de sopa para cortar o queijo.
Então, tomam vinho com fatias curvas de queijo e pão novidadeiro, e como sobremesa, milhojas dulce de leche. 13/10/13

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

GAIOLA SOBE-E-DESCE ESTÁTICA





        Talvez não haja muitas gentes claustrofóbicas. Você? Já se imaginou trancado em qualquer ambiente? Deve ser terrível!
         
          Será por isso – com exceção das solitárias – que as celas prisionais têm uma ampla grade em um dos lados em que há porta?
         
          Quando eu ouvia sobre pessoas que ficavam presas em escombros – por razões várias, tais como, terremotos, desmoronamentos e outros – ficava a pensar no desespero daqueles entes. Imaginava-me em uma situação similar e elucubrava como seriam os meus comportamentos e sentimentos; jamais cheguei sequer a vislumbrá-los com alguma verossimilhança.
         
         Porém, fiquei preso em um elevador, com mais duas pessoas. Pensei: será minha oportunidade de reconhecer-me claustrófobo, ou não. Fiquei entremeado com a excitação e o medo, o último poderia consequenciar um resultado desconfortável, quiçá perenizar-se. Outra: esta pessoa é interessante, bela e... Se ficássemos trancados – só os dois – poderia proporcionar-me o conhecimento desta estirpe externa de pessoa. A mente é pródiga...
       
         Nenhum de nós estava apreensivo. Entretanto, a iniciativa procedeu do terceiro ocupante — após isso constatei que a sua madureza transcendia a cronologia—, apertou o botão do alarme e gritou um nome próprio avisando-lhe que estávamos presos. Enfiou as mãos no vão entre a porta e a parede da gaiola sobe-e-desce, empurrou-a aos poucos e a porta cedia gradativamente. Estava na maior calma, disse que era rotina o cubículo móvel travar-se.
         


         Antes que o avisado chegasse para socorrer-nos a caixa foi aberta e por ela saímos.

         Perdi dois outros conhecimentos: o daquela pessoa — supostamente — digna de ser desbravada e o nome da pessoa libertadora de nós três, presos, não solitários e não apenados.  24/07/13

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

CAMPO GRANDE: ESTÃO DESMAZELADOS COM ELA!

          Porque ela não é desmazelada nem está?  Porque ela é um local geográfico onde reúnem-se pessoas, gatos, cachorros, vírus, bactérias e muitos outros seres, e esses espoliam-na o máximo que podem, na verdade, parasitam-na.
 
          O verbo “ser” designa condição ou característica, por exemplo, Fulano é o prefeito da cidade de Campo Grande; Sicrano é inteligente.
 
          O verbo “estar” indica um estado ou posição geográfica, por exemplo, Campo Grande está abandonada pelas as autoridades; Beltrano está  em outra cidade.
          A cidade não é responsável por estar descuidada, os que a habitam — sobretudo os gestores — o são. 
          Ela não exerce, nem pode exercer, ação alguma sobre si ou outrem; todavia, é totalmente passiva, recebe — na maioria das vezes sofre — a ação dos seus circunstantes, ou outros comensais que lhe afetam.
Estacionamento sobre calçada
 na Av. Mal. Deodoro 
          Suas calçadas e sarjetas no centro estão destruídas, mal conservadas; nos bairro o quadro é um tanto mais crítico: as calçadas não existem, ou estão esburacadas, ou servem de estacionamento para veículos de duas ou mais rodas; quanto às sarjetas, seria pedir em demasia.

          As ruas centrais estão forradas de papéis publicitários, sendo que os agentes das sujidades são os anunciantes, com a cumplicidade do poder público que deixa de coibi-los.
Rua 14 de julho, com a Barão do Rio Branco.
Em   frente  às   Lojas   Riachuelo,  no centro
         
           Semáforos para pedestres inexistem  — esses são a parte mais frágil do trânsito —, os quais lançam-se à frente dos carros e dos camicases sobre duas rodas. Ela é — dentre as muitas capitais que conheço — a única que não os tem. Sinalização horizontal, com ênfase para a faixa para pedestres, também não há. 
 
           O asfalto é um conjunto de baixos e altos relevos — calombos provenientes de sucessivos remendos —  que os gestores não visualizam,  há tempos, a necessidade de recapeamento.   Essa  desqualidade do asfalto só intensifica a problemática do transporte urbano, propiciando grandes barulhos ininterruptos em muitos dos ônibus velhos e mal conservados, alguns até com mofo no teto.
Comércio ambulante nos
 terminais de ônibus
          Os terminais de ônibus transformaram-se em camelódromos, tornando seus espaços ainda mais disputados quando alguns expõem suas mercadorias no chão. Há os que vendem alimentos, os quais podem  ser deletérios, pela longa exposição ao ambiente e feitura sem fiscalização dos órgãos sanitários. Alguns bebedouros de água vazam, denota-se duplo descaso: mau serviço ao público e desperdício do líquido essencial à vida.
 
            A rodoviária, inaugurada em 2009, é um exemplo da desatenção de seus mandatários. Fizeram-na pequena em demasia — é uma dissonância no tange ao tamanho da sua população e às perspectivas de seu crescimento —, assemelha-se ao improviso duradouro tão característico do famigerado e pernicioso “jeitinho brasileiro”, o qual pode-se subdenominar jeitinho sul pantaneiro, ou jeitinho mandioqueiro, como oriundos de outros estados alcunham o sul-mato-grossense; as toaletes mais assemelham-se a uma piscina semiolímpica do que propriamente a um local para receber o substantivo inerente à sua função desejada, são sujos, fétidos e destituídos dos apetrechos necessários para higienização conveniente ( faltam sabonete e papel toalha). Então, para que servem as taxas de embarque que pagamos?
            O que fazem as autoridades em suas funções? Onde está (localização geográfica) o erário? 
            Acordem: população e mandatários!                                16/08/2013