domingo, 27 de setembro de 2015

CALÇA PRETA

          De tanto observar aquelas bandas serem demarcadas pela suspensão da preta calça de lycra, com um furinho que mostrava a cor da pele mais esbranqueada que em outros visíveis locais. Para finalizar o alçar da veste ela bamboleava os quadris para os lados. Aquilo era de acelerar a corrente sanguínea e de intumescer músculos.

            Após exaustivas mas sempre vigiadas manobras, sem pretexto algum ele a convidou para apreciar um chá chileno que comprara em uma de suas frequentes excursões pela América Latina.

            Não tinha esperança muita pelo aceite; mesmo assim o fizera. Então, a sua resposta o surpreendeu para mais.

            A despeito da sua nutrição imaterial do alimento inacessível, olhava-a quase como se fosse, porém, manteve a civilidade no nível que lhe competia.

            Durante o degustar da essência, um e outro entreolharam-se, espreitando, antevendo os possíveis desdobrares daquela.

            Ela viu um livro que lhe interessou, estava na estante atrás e acima da cabeça dele, seu colo quase tocou milimetricamente a face dele ao esticar-se para apanhá-lo.

            Ele abortou o olhar e devaneou, suspirou, beijou-a levemente naquele local quando ela retornava o corpo ao assento.

            Ela enlanguesceu-se. Aproximou-se dela, os contatos abrutalharam-se, acompanhados de sons inerentes à ocasião.

           A ardência e a rusticidade dos corpos era grande, deveras grande, propícias para ocasiões bélicas, não para cerimônias românticas.

           Existiriam montanhas, por mais altaneiras que fossem, inacessíveis às aspirações humanas?                                                                                              20/08/2015    

terça-feira, 25 de agosto de 2015

GRADUAÇÃO EM ODONTOLOGIA – Universidade Federal do Amazonas (UFAM 1990) *

           Temos a audácia de chamar a todos de ilustres, então: a todos os ilustres presentes nosso muito boa noite, nosso muito obrigado; sendo que com que as suas ausências esta festa não seria possível.

            Há cerca de 4 anos quando adentramos o seio da Universidade Federal do Amazonas, muitos de nós éramos adolescentes e, hoje, esta mesma Universidade entrega à sociedade manauara, que a sustenta, 32 odontólogos, adultos, cônscios de suas responsabilidades e portadores de uma boa dose tecnicista que nortearão os seus atos profissionais.

            Quantos não se empenharam espiritual ou materialmente pela nossa formação, quer sejam pais, sejam irmãos, ou sejam de quaisquer outros laços de união? A esses, a nossa gratidão da maior relevância possível.

           Aos mestres, que nos transmitiram seus conhecimentos, com a paciência de monge, para os neófitos da ciência odontológica, nossa eterna gratidão; aos que no-los negaram, nós, com a benevolência de um espiritualista, damo-lhes o nosso perdão.

            Muitas dificuldades passamos, quer fossem falta de material, quer fossem greves, quer fossem de quaisquer outros tipos, mas essas serviram também para o nosso amadurecimento cívico. É uma questão de sob qual prisma se analisa, e nós preferimos esse.

            Alguns de nós tem 15 anos de banco escolar, e até alguns com mais de 20 anos. Importa-nos saber que essa mesma longa instrução dar-nos-á o sustentáculo para transpor as adversidades pelas quais a nação se defronta, e nos recusamos a aceitá-las como perenes.

           Queremos ver Brasil do futuro com os menores índices de desdentados nas estatísticas mundiais, podendo nosso povo sorrir feliz, brilhante e sadio, e não apenas por ironia ou masoquismo.


* Palavras de gratidão dirigidas aos participantes do processo de formação e demais presentes, em 23 de agosto de 1990.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A DEUSA DO CHOCOLATE

           Chego a um dos meus inúmeros destinos.
 
           Uma jovem recepciona-me. Os seus cabelos com longas e belas tranças reluzem-se no meu sentido.
 
           Não consigo impedir os meus deslumbramento e desconserto. Ao abrir a boca começa-se uma sinfonia, mesmo quando não há rimas, visto a maviosidade de seus sons.
 
           Não se altera um segundo sequer, seja ao perguntar, seja ao responder, como quem tem tudo sob o seu controle, e o tem.
 
           Não é comum tamanha solicitude, ela pede-me que a acompanhe. A conversação se estende pelas raias das amenidades, todavia, a mente ousa.
 
           Adianta-se alguns passos, outro extasiamento, agora pela arquitetura do templo, por suas estética e simetria, e como geralmente essa conduz à perfeição, a sua pertence à regra.
 
           Desde as colunas estruturais, passando pelo médio palaciano até a torre, é a plena e infinita harmonia diante dos olhantes meus.
 
           Ao fixar-me em uma janelinha losangular entre duas colunas de Trajano, vejo os meus destino e sonhos entremeados no vácuo, assim, a mente imiscui-se no devaneio de mesma dimensão.
 
           Há abóbadas acopladas a lateral das colunas, algo jamais visto. A minha realidade seria outra – mas não um sonho –, prefiro àquela, se viver pudesse neste paraíso/templo regido por esta deusa.
 
           Da Vinci, Le Corbusier, Niemeyer e tantos outros, se o vissem, sentir-se-iam enciumados do ignoto colega.
 
            O tempo irá para não sei onde, contudo, a sua imagem e a minha veneração serão infinitas enquanto este plebeu esqueleto subsistir.
 
           Ah! se o tempo parar pudesse nestes lugar e instante, ninguém saberia disto, porém, o meu deleite seria mais incomensurável do que qualquer outro d'agora ou d'antes.
 
           Ó, deusa do chocolate! Por que não me achocolata, melhor ainda se o for com o amaro, e com 70 a 90% de cacau? Não recebi pousada definitiva, assim, abastecido de feniletilamina e de flavonoides do seu âmago e das suas calorias, tenho que seguir para os meus outros destinos, contudo, a mente está estática. 
                                                            Maio de 2015.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

PARCERIA II


        

  A educação, o bom trato e a comedição seduzem, como todas as características dessa natureza o fazem e dever-nos-iam habitar.
 
          O desejo pelo desejado desperta-lhe o desejo desejado pela desejadora. Excita-o deveras, visto que o macho apraz-se ao reconhecer-se apetecido.
 
          O ósculo é na justa medida, ativo, ousado, acariciador e instigante, suscita o mais querer.

           O ronronar, que se assemelha ao cio temporal leva ao devaneio e à exacerbação do potencial, à busca do contentamento do duo.

           O solicitar, mesmo que disfarçado, de certas selvagerias faz com que a busca do clímax seja almejada, impulsionando-os atos para a consecução do fim.

           A ação conjunta, a busca do sincronismo e do bem comum, ocasionam o prazer da realização e do querer continuar ou do refazer, melhor. Visto que não há titubeios ou negações às proposições para o intento.

           O bom humor alegra e conforta com reciprocidade, proporciona bem-estar e vontade de continuar a lide.

           O outrem é  respeitado, não questionado, ou pretendido que  mude.
 
          O grau adequado e intencionado da temperatura, a hidratação e o  atrito estruturais  em ideais  condições de anseio são parceiros no atingimento metas.         21062015

sexta-feira, 17 de julho de 2015

PARCERIA I

          Faz-se interessante quando o ser humano sabe escutar e ouvir, bem como a hora e o assunto adequados. São poucos os que se encaixam em tais.

          A comedição  pode ser considerada uma das grandes virtudes, mesmo que nenhuma seja pequena.



          O riso justo e circunscrito aos afetos é um ato de respeito para com todos que possam ser envolvidos.

          O aparelho gustativo é composto por vários órgãos, esses podem ser ativos ou não, os primeiros são os esperados, e se são ativos com iniciativa, tanto melhor. É de bom agrado que sejam odorizados e saibam desempenhar as suas funções, quando causam o deleite dos alcançados.

          Os membros dinâmicos aprazem os que os veem/tocados.

          É desejável que a água seja molhada, se o for, cumpre o que dela imagina-se e frutifica os que a querem, visto que o agricultor se satisfaz com a sua abundância na época certa. Há plantas alimentos, dessas ninguém pode prescindir; entretanto, há as que preenchem os anseios outros, e são tanto ou mais almejadas que as primeiras.

          Os pássaros que habitam o pomar alegram o cultivador deveras, tanto que os deseja de forma veemente.
 
          Para tanto, fazem-se necessários as ações e os quereres de todos os envolvidos para que a orquestra da natureza se apresente e conspire com o maior de todos -- o universo.                                 
                                                         21/06/2015

quinta-feira, 16 de abril de 2015

AMUSALANA

          Caminho por um parque, no qual há quase tudo que se imagina haver em um, o lusco-fusco invade-o.
 
          Quando de chofre vislumbro um ser bem menos lusco-fusqueante, sua fulgurância era tamanha que seria percebida mesmo que à luz das noites não-satelizadas..
 
          Sentada em um banco para um trio ou um quarteto convidava no silêncio quem a pudesse acompanhar em múltiplos sentidos.
 
          Pensei: a minha matemática é evoluída em comparação à sua, incipiente; o meu mapa está deveras riscado, por tantas trajetórias, o seu, apenas os viçosos relevos; as minhas cobertas são raras, as suas, negrejantes, espaçosas e límpidas.
 
          Cruzo, admiro, inspiro-me, respiro, suspiro, expiro e reflito. Retorno, tergiverso, enfim, pergunto: — Desculpe-me a ousadia, permitir-me-ia lançar mão das ideias lumierianas e transcrever a beleza múltipla deste cenário? Este crepúsculo, o seu veículo dobrerrodas que a ladeia e a protege, as suas vestes combinantes e realçantes como Le rouge et le noir, de Stendhal, o seu longo calçante que perpassa a dobra dos membros andantes; porém, com o realce da perscrutação da obra de outro francês, Albert Camus. E, se ainda não bastasse, as folhas de Platanus Acerifolia esvoaçando ao derredor.
 
          Ela concede-mo sem consternação, confessa-me que amiúde o faz sem a permissão de outrem.
 
          Simula a volta ao devaneio com a celulose e as tintas, porventura, oferece a naturalidade que tem apresentado. Tomo a melhor posição, aguardo a ausência dos disturbios, pronto, pressiono o obturador do meu ultrapassado smartphone.
 
          Reaproximo-me, mostro-lhe, sorri-me com a graça que, à lonjura, se me apontara.
 
          Inquiro-lhe o nome, diz-mo; um bonito para uma além da lindeza.
 
          Há os os que dizem que natureza é perfeita, o que dubitável, contudo, às vezes, ela exagera na perfeição, e têm-se as aquinhoadas de tudo. A minha musa é um desses espécimens.
 
          Agradeço-lhe, afasto-me. Um mancebo ao meu lado vocaliza algo incompreensível, pergunto-lhe, nega-se a desfraldar o enigma. Reinsisnto, ele acede, diz que um dia foi bom naquilo. Não entendo, pergunto mais, ele insinua que eu paquerava a musa, neguei, o que era fato. Disse-lhe que lhe pedira para eternizar aquela beleza museana com o auxílio dos pixels. Ficou embasbacado e incrédulo pelo vira ou pensou que vira.
 
          Sorriu sem cor, seu companheiro chamou-o, despediu-se e seguiu seu caminho.
 
          Foi-se sem a imagem que tive, todavia, eu a tenho duplamente.
 
                                                                                                  14/04/2015

sexta-feira, 3 de abril de 2015

CRIAÇÕES FRANCESAS

          Algumas classificações são – a meu verrealmente invertidas, para não escrever ilógicas, incoerentes. Carne de primeira é a de melhor qualidade, já uma pessoa que tem educação primária não teve muito acesso a ela, uma que tem a terciária tem-na avançada; ao passo que uma carne de terceira ou um bilhete de terceira classe em um transporte qualquer não é dos melhores. Porém, um colega dizia que mulher interessante é a de segunda, visto que a carne é mais consistente que a de primeira, essa é flácida. 


          Então, vejo uma morena, cerca de 20 anos, debutante no nível terciário. É uma de primeira – escrevo, de segunda – no terciário. Eis a razão daquele intróito, para que possa entender o embaralhamento matemático-verborrágico.

          Penso: é de alguém de seu nível que preciso, porventura, todo Homem pensá-lo-ia. É ingênua, mas lépida, inteligente. Interessa-se por tradução – para a sua língua individual –, quer entender tudo a seu modo, trata-se da empolgação intelectual personalizada.

          Cumprimenta-me esporadicamente, e sorri-me meio amorenado com os seus marfins atraentes, investida de sua silhueta contrária a outros portadores de marfim, asiáticos e africanos.

          É inconcebível vê-la e não perceber a agitação do liquor vital.

          Raríssimas vezes vi dois que se emaranhassem tão à francesa, com tamanha sofreguidão. Só vi-me em similitude nas circunstâncias de máximo frisson.

          Vejo-as além da descrição, em um duplo desperdício, embora o desejável seria o trois.

          Já não me amusa mais. 01/04/2015